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Discernindo a Vontade de Deus para um Caminho Frutífero
"Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a vida em resgate de muitos" Marcos 10:45
MENSAGENS
Clemente A. Albuquerque Jr.
2/1/20267 min read


SUBMETENDO NOSSOS PLANOS À VONTADE DE DEUS
PROVÉRBIOS 16.1-3; MARCOS 10.45
INTRODUÇÃO
Quando meditamos, sinceramente, sobre o desafio da liderança cristã - da liderança das comunidades cristãs - temos diante de nós, e em nossos corações, o peso da responsabilidade de governar a Casa de Deus. E é natural que, neste momento, nossa mente fique ocupada com esses temas: “como resolveremos o problema daquela congregação?”, “como trataremos naquela matéria polêmica?”, “qual será o futuro de nossa comunidade?”.
E diante dessas questões, a Palavra de Deus nos convida a suspender por um instante nosso olhar da gestão eclesiástica pura e mergulhar na soberania divina, discernindo a vontade de Deus para um caminho frutífero. Buscando compreendes este princípio, vamos olhar tanto para o Antigo Testamento quanto para o Novo. Vamos ouvir Salomão (em Provérbios 16) e o Senhor Jesus (em Marcos 10).
CONTEXTO
Vivemos uma tensão perigosa na liderança de muitas Igrejas: o risco de confundirmos o nosso ativismo com a vontade de Deus; de, sem perceber, acharmos que o sucesso do Reino depende da nossa capacidade administrativa. Mas a Escritura nos exorta a lembrar que existe um caminho mais excelente, um caminho de dependência radical e de serviço sacrificial - pois um caminho frutífero para a Igreja não nasce da capacidade estratégica dos seus oficiais, mas da submissão dos nossos planos à soberania de Deus e da conformação da nossa liderança ao sacrifício de Cristo.
Para discernirmos essa vontade, analisaremos três realidades inescapáveis: A soberania de Deus sobre nossos planos, o escrutínio de Deus sobre nossas motivações e o modelo de Cristo para nossa atuação.
DESENVOLVIMENTO
I. A SOBERANIA DE DEUS SOBRE NOSSOS PLANOS (Pv. 16.1, 3)
Provérbios começa com um realismo impressionante: “O coração do homem pode fazer planos...”. No hebraico, a expressão para “planos” é ma'archei-lev (מערכי־לב), que significa literalmente “os preparativos do coração”. É uma linguagem quase militar ou arquitetônica. Salomão reconhece que o ser humano é uma criatura que organiza, projeta e estrutura o futuro. E, meus irmãos, como líderes da Igreja, nós fazemos isso! Nós planejamos a liturgia, organizamos o orçamento, estruturamos a Escola Bíblica Dominical, supervisionamos as sociedades internes e ministérios. Isso tudo é legítimo e necessário, pois o nosso Deus é um Deus de ordem.
Contudo, o texto estabelece um contraste absoluto: “...mas a resposta da boca vem do SENHOR”. Aqui reside o mistério da Providência Divina. Nós podemos organizar os argumentos, desenhar os projetos, votar, mas a resposta final – a “מענה לשון” (ma'aneh lashon), o decreto que se concretiza na história - pertence exclusivamente a Yahweh. Como nos ensina a Confissão de Fé de Westminster (Cap. V), Deus, o grande Criador, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as ações e todas as coisas. Não haverá voto neste plenário que escape ao decreto eterno de Deus. Isso deve, primeiramente, nos humilhar: não somos os senhores da história da Igreja - somos apenas Seus mordomos!
Por isso o versículo 3 nos declara o imperativo para a frutificação: “Confia ao SENHOR as tuas obras”. O verbo hebraico traduzido como “confia, entrega” aqui (גל, gōl) pode ser entendido como “rolar [para]". A imagem é gráfica: imagine alguém carregando um fardo pesado demais, insuportável, e transferindo esse peso, “rolando-o” para os ombros de Alguém que é mais forte. Muitos de nós chegamos às reuniões de planejamento cansados, ansiosos, preocupados com o futuro de nossas Igrejas locais. A ordem da Escritura é: “role o peso!”. Transfira a ansiedade para o Senhor da Igreja!
João Calvino, ao tratar da Providência, nos lembra que a ignorância da providência é a maior de todas as misérias, mas o conhecimento dela é a maior felicidade. Por quê? Porque quando “rolamos” nossas obras sobre o Senhor, recebemos a promessa: “… e os teus desígnios serão estabelecidos”. A estabilidade de um Concílio (e, por extensão, de uma Igreja, e até de um lar) não vem da inteligência dos debates, mas da profundidade da sua dependência! Uma comunidade que ora pouco e debate muito é uma comunidade instável - mas uma comunidade que “rola” seus planos sobre o Senhor encontra o caminho frutífero da estabilidade divina!
II. O ESCRUTÍNIO DE DEUS SOBRE NOSSAS MOTIVAÇÕES (Pv. 16.2)
Avançando em nossa meditação, o texto nos confronta ainda mais profundamente. O verso 2 diz: “Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito”. Meus irmãos, aqui está o perigo da autoilusão na liderança cristã. Nenhum de nós propõe uma ideia, defende uma tese ou lança um projeto dizendo “estou fazendo isso por vaidade” ou “estou fazendo isso por partidarismo”. A natureza do pecado remanescente em nós é tal que sempre revestimos nossas intenções com uma capa de piedade. Aos nossos próprios olhos, nossos caminhos e entendimentos são sempre “puros”, “ortodoxos” e “necessários”.
Mas o texto diz que Yahweh é aquele que “pesa” - ou “mede” - os espíritos (תכן רוחות, ṯōḵên rūḥōwṯ [tochen ruchot]). Deus não olha apenas para as propostas que estão na mesa: Ele olha para o coração de quem a propôs! Ele coloca nossas intenções na balança, discerne se o nosso zelo doutrinário é amor à verdade ou apenas desejo de vencer um debate. Ele sabe se a nossa defesa de um projeto é para a glória de Cristo ou para a construção do nosso pequeno domínio pessoal.
A teologia reformada sempre enfatizou que o pecado afeta não apenas nossas ações, mas nossas motivações mais profundas. O puritano Jeremiah Burroughs, em sua obra “Irenicum: To the Lovers of Truth and Peace” (1646), lamentava como as divisões na Igreja muitas vezes nascem não de diferenças teológicas reais, mas de corações que ‘não foram sondados’ pela graça - Deus sempre avalia o “porquê” fazemos o que fazemos, mas nós mesmos muitas vezes fechamos nossos ouvidos ao Espírito.
Portanto, para termos um caminho frutífero em nossa vida comunitária, precisamos de arrependimento constante. Antes de levantarmos a mão para votar, precisamos orar: “Senhor, pesa o meu espírito. Purifica a minha intenção. Que eu não busque a minha própria honra, mas a Tua”. O caminho frutífero é o caminho da transparência diante de Deus, vivendo Coram Deo - diante da face de Deus - sabendo que Ele vê o que não está escrito nas atas das nossas reuniões.
III. O MODELO DE CRISTO PARA NOSSA ATUAÇÃO (Mc 10.45)
Então, finalmente, como discernimos a vontade de Deus na prática das nossas relações? A resposta está em Cristo! Em Marcos 10.45 lemos: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
O contexto deste versículo é assustadoramente similar a reuniões de liderança de muitas Igrejas! Tiago e João estavam disputando lugares de honra, queriam sentar-se à direita e à esquerda no Reino. Eles viam o Reino de Deus como uma estrutura de poder e prestígio. Jesus, então, inverte a lógica do poder. Ele usa o termo diakonéo (διακονέω) - servir à mesa, o trabalho do escravo. E Ele diz que o Filho do Homem, aquele que Daniel viu recebendo domínio, glória e reino, exerceu sua autoridade suprema não subjugando e sendo servido (diakonēthēnai, διακονηθῆναι), mas servindo (diakonēsai, διακονῆσαι) - ou, literalmente, morrendo!
A expressão “dar a vida em resgate (lytron, λύτρον) por muitos” aponta para a expiação substitutiva. Cristo pagou o preço para libertar escravos. Meus irmãos, a autoridade na Igreja, segundo o Novo Testamento, deve ser sempre cruciforme, ter a forma da cruz. Não existe “poder” na Igreja que não seja para lavar os pés dos santos do Senhor. A autoridade recebida na ordenação dos oficiais não é para comandar como os gentios, mas para se sacrificar pelo rebanho.
Como isso se aplica à nós hoje? Significa que o presbítero que verdadeiramente discerne a vontade de Deus não é aquele que luta para ter a palavra final, mas aquele que busca o bem do outro. Significa que nossas decisões administrativas devem ter um fim soteriológico: o resgate, o cuidado, a edificação das ovelhas. Se a nossa burocracia, se os nossos processos, se as nossas discussões não facilitam a diakonia e o anúncio do lytron (o resgate) de Cristo, então estamos falhando na obra!
O caminho frutífero é o caminho do serviço. Uma igreja onde os líderes competem por honra é uma igreja estéril. Mas uma Igreja onde os líderes competem para ver quem serve mais, quem perdoa mais, quem suporta mais - essa é uma Igreja onde a vontade de Deus floresce!
CONCLUSÃO
Amados irmãos,
Ao iniciarmos os trabalhos de mais um ano, voltemos nossos olhos para o nosso Cabeça, Jesus Cristo. Ele é a Sabedoria de Deus encarnada, Aquele que, perfeitamente, “rolou” - depositou - Seus caminhos sobre o Pai no Getsêmani, dizendo: “Não seja o que Eu quero, mas o que Tu queres”. Ele é Aquele cujo espírito foi pesado na balança da justiça divina e foi achado perfeito, puro, sem mácula - mas aind assim foi moído pelas nossas transgressões. E Ele é Aquele que não veio para ser servido, mas serviu até a morte, e morte de cruz.
Que o Espírito de Cristo presida nossas reuniões. Que os nossos planos (ma'archei-lev) sejam submetidos à resposta soberana de Deus, nossas motivações sejam purificadas pelo fogo do Espírito, e que a nossa liderança seja uma extensão do serviço amoroso de Jesus.
Assim, certamente, teremos um caminho frutífero, para a edificação da Igreja de Jesus e para a glória exclusiva do Deus Trino.

Assista:
Liderança Segundo a Vontade de Deus!
Lideranças servidoras lidando com o imprevisível.
