A quem queremos agradar?

“Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” Gálatas 1.10

MENSAGENS

Clemente A. Albuquerque Jr.

10/12/202610 min read

A liberdade de servir a Cristo

O contexto - uma crise no coração da Galácia

Para entender o peso da pergunta de Paulo em Gálatas 1.10, precisamos conhecer a situação que a provocou. O apóstolo havia pregado o Evangelho da graça nas igrejas da Galácia, região do centro da Ásia Menor, e partira. Logo depois, outros mestres chegaram e começaram a ensinar que a fé em Cristo não bastava: para ser plenamente aceito por Deus, era preciso também circuncidar-se e guardar a lei mosaica. Não era um detalhe de costume religioso - era uma reescrita do Evangelho. E, para dar força à nova mensagem, esses mestres atacavam o próprio Paulo, insinuando que ele não era um apóstolo de verdade e que pregava uma versão diluída do Evangelho dos primeiros discípulos.

É nesse clima que Paulo escreve. A carta não traz a saudação de gratidão habitual; Paulo vai direto ao espanto: as igrejas estavam abandonando "aquele que as chamou pela graça de Cristo" para seguir "outro evangelho", que, na verdade, não era Evangelho. Sua advertência é tão séria que ele diz: nem mesmo um anjo do céu deveria ser ouvido se anunciasse mensagem diferente. E é logo em seguida que ele pergunta: "Busco eu agora o favor dos homens ou o de Deus?" A pergunta nasce de uma crise, não de vaidade: quando a aprovação humana começa a reescrever a mensagem da graça, o servo de Cristo precisa saber a quem pertence.

1. O Evangelho de Cristo não está à venda por aplausos

Paulo pergunta: "Busco eu agora o favor dos homens ou o de Deus?" O verbo grego pode ser lido como "persuadir" e, no contexto, a pergunta também comunica a ideia de procurar conquistar favor ou aprovação. Não significa que Paulo considerasse errado convencer pessoas da verdade - ele próprio anuncia o Evangelho para que o ouçam. O contraste é entre persuadir pessoas a receber o Evangelho e mudar o Evangelho para receber a aprovação delas. Deus não é alguém a quem Paulo tenta manipular com argumentos; é Aquele diante de quem responde pela mensagem que prega.

Veja que Paulo acabou de pronunciar uma advertência dura contra “outro evangelho”. Não é a maneira de falar de quem está compondo uma mensagem para ser popular. É como se ele dissesse: "Depois do que acabei de declarar, vocês realmente acham que estou tentando conquistar aplausos?" Ele deixa claro que a autoridade da mensagem não depende do prestígio de quem a anuncia: se até o próprio mensageiro a substituísse, essa substituição teria de ser rejeitada!

A própria carta nos permite enxergar o que estava em jogo. Mais adiante, Paulo descreve pessoas que pressionavam os gálatas a aceitar a circuncisão para manter uma boa aparência e evitar a perseguição por causa da cruz. Queriam gloriar-se naquilo que conseguiam dos outros; Paulo, ao contrário, declara que só quer gloriar-se na cruz de Jesus Cristo. O caso é instrutivo: a alternativa parecia respeitável e religiosa, mas o medo de sofrer por Cristo estava mudando aquilo que se exigia dos irmãos.

Lutero, ao comentar este versículo, alerta: "Até o dia de hoje, você encontrará muitos que buscam agradar aos homens a fim de viverem em paz e segurança. Se quisermos agradar aos homens, devemos sofrer o escândalo da cruz; mas se pregarmos a verdade, atrairemos a oposição do mundo". Não se trata de buscar conflito como se a perseguição fosse uma virtude em si. Trata-se de perceber o preço oculto de uma mensagem feita para não incomodar ninguém: ela pode deixar de dizer aquilo que precisamos ouvir para voltar a Cristo.

Talvez hoje a pressão não apareça como uma ordem para sermos circuncidados. Pode vir como a exigência de sermos suficientes por nosso desempenho: "Deus me aceitará quando eu melhorar bastante". Pode vir também na forma oposta: "Não é preciso arrepender-se; Deus aprova qualquer caminho que eu escolher". Uma versão acrescenta à obra de Cristo uma condição para merecer aceitação; a outra dispensa a palavra de Cristo sempre que ela contraria nossos desejos. As duas deslocam o centro da cruz para nós mesmos.

É aqui que a herança reformada nos ajuda a dizer com clareza o que está em jogo. No capítulo 11, a Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus justifica o pecador não por alguma realização sua, mas por causa de Cristo, cuja justiça é recebida pela fé. Isso não torna a obediência sem importância; impede que a obediência ocupe o lugar do Salvador. A boa notícia começa em Cristo, que se deu por nossos pecados, não na capacidade de construirmos uma imagem aceitável de nós mesmos.

Por isso, quando ouvimos uma promessa religiosa, vale perguntar: ela me leva a confiar mais em Cristo ou a negociar com Deus uma aprovação comprada por mim? Quando ouvimos uma pregação, não devemos julgá-la apenas pela sensação de conforto que produz. E nós que ensinamos, aconselhamos ou falamos de Deus aos nossos filhos precisamos perguntar: estamos dizendo a verdade com amor ou omitindo parte dela para continuar bem vistos? O favor de Deus não é comprado com nossa coragem; é em Cristo que encontramos graça para sermos fiéis.

2. O medo das pessoas não pode governar o servo de Cristo

Paulo prossegue: "Ou procuro agradar a homens?"; e acrescenta: "Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo". O "ainda" nos faz sentir o contraste entre uma vida submetida à aprovação humana e sua posição presente como servo de Jesus. O problema não é que alguém goste de nós; é fazer da reação das pessoas o critério final da nossa obediência.

Essa ameaça não existe apenas fora da Igreja. Em Gálatas 2, Paulo relata um episódio doloroso entre os próprios apóstolos: em Antioquia, Pedro costumava comer com os gentios; mas, quando chegaram determinadas pessoas, retirou-se daquela convivência, "temendo os que eram da circuncisão". Outros seguiram sua dissimulação, e até Barnabé foi levado junto. O temor de perder a aprovação de um grupo alterou um gesto cotidiano: com quem Pedro se assentava à mesa.

Paulo o confrontou porque aquela conduta não correspondia à verdade do Evangelho. O texto logo declara que ninguém é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo. Se a aceitação diante de Deus não é conquistada por essas obras, agir como se os irmãos gentios fossem uma classe inferior contradizia, na prática, a mensagem que Pedro conhecia. O episódio mostra que podemos professar corretamente a graça e, em certas escolhas, viver como se a aprovação de um grupo fosse mais importante.

Não usemos essa cena para justificar a grosseria. Paulo não transformou o confronto em espetáculo para demonstrar superioridade pessoal. Seu alvo era proteger a verdade do Evangelho e a comunhão ferida por aquela conduta. Matthew Henry observa que a firmeza de Paulo não era uma tentativa de lisonjear ouvintes: fazia parte de sua fidelidade ao Cristo de quem recebera a mensagem. A pergunta que devemos trazer para casa não é "com quem posso brigar?", mas "onde o medo está tornando meus atos diferentes da minha confissão?"

Esse medo assume formas discretas. Em João 12, alguns líderes creram em Jesus, mas não o confessavam por temor de serem expulsos da sinagoga; o evangelista explica que amavam mais a glória dos homens do que a de Deus. Há ocasiões em que a aprovação humana parece proteger o emprego, a amizade, a reputação. A pressão pode ser real, e o custo da fidelidade não deve ser tratado com leviandade. Justamente por isso precisamos de misericórdia, oração e coragem, não de uma pose de invulnerabilidade.

Há momentos, porém, em que a escolha se torna clara. Quando as autoridades proibiram os apóstolos de anunciar Jesus, eles responderam: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens". Isso não nos autoriza a desprezar toda correção ou a chamar cada contrariedade de perseguição. Autoriza-nos a obedecer a Deus quando uma exigência humana realmente nos manda desobedecer-lhe.

A Confissão de Westminster, no capítulo 20, resume um limite precioso: "Somente Deus é o Senhor da consciência". Ninguém tem o direito de exigir que tratemos um mandamento humano contrário à Palavra como se fosse a voz do próprio Deus. Mas também não podemos usar a consciência como nome mais nobre para nossa teimosia. Quem pertence a Cristo deve estar disposto tanto a resistir a uma exigência contrária ao Evangelho quanto a reconhecer, humildemente, quando foi corrigido pela verdade.

Calvino escreveu, a respeito deste texto, que os que decidem servir a Cristo fielmente precisam ter coragem de desprezar o favor dos homens. Ouçam bem: desprezar esse favor não é desprezar as pessoas. É recusar que o desejo de ser admirado ocupe o lugar de Cristo. Talvez nosso passo de obediência nesta semana seja confessar uma mentira, pedir perdão a alguém de quem tememos perder a estima, ou deixar de nos calar quando um irmão precisa, de fato, da verdade dita com mansidão.

3. Pertencer a Cristo nos liberta para amar sem negociar a verdade

Paulo encerra a frase com uma identidade: "não seria servo de Cristo". A expressão grega "doulos Christou" fala de alguém que pertence a Cristo e está a seu serviço. O servo não é dono do Evangelho para adaptá-lo ao gosto de um público. Mas também não é dono das pessoas, como se pudesse feri-las e chamar sua aspereza de coragem. Sua lealdade a Cristo governa tanto o conteúdo que anuncia quanto o modo como serve.

Aqui, pode surgir uma dúvida sincera: "Mas Paulo não disse em outra carta que procurava agradar a todos?" Sim. Em 1 Coríntios 10, ele fala em fazer tudo para a glória de Deus e em buscar o bem de muitos para que sejam salvos. Em Romanos 15, manda agradar ao próximo "no que é bom para edificação" e lembra que Cristo não agradou a si mesmo. Não há contradição: Gálatas proíbe agradar aos homens à custa da fidelidade a Cristo; Romanos e Coríntios nos mandam procurar o bem das pessoas por fidelidade a Cristo. O objetivo, e não simplesmente a reação que recebemos, faz a diferença.

Considerem como Paulo viveu essa distinção. Em 1 Coríntios 9 ele diz: "Sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos". Aproximou-se dos judeus como judeu, dos que estavam sem lei como alguém capaz de alcançá-los, dos fracos como alguém atento à sua fraqueza. Ele mudou sua maneira de se aproximar das pessoas para ganhar algumas para o Evangelho. Mas fez questão de dizer que não estava livre da lei de Deus: permanecia sob a lei de Cristo. Podia abrir mão de preferências e direitos seus; não podia abrir mão do Senhor a quem pertencia.

Imagine uma pessoa que chega pela primeira vez ao nosso culto e não conhece nossa linguagem. Podemos explicar o que queremos dizer, acolher suas perguntas, escutar suas dificuldades e evitar que costumes nossos se transformem em obstáculos desnecessários. Nada disso exige ocultar a cruz, negar o chamado ao arrependimento ou prometer uma salvação comprada por esforços. É possível adaptar o modo de falar sem trocar a verdade anunciada. É possível ser hospitaleiro sem dizer a quem chega apenas aquilo que nos fará parecer hospitaleiros.

A própria carta aos Gálatas põe essa liberdade em movimento: "Servi-vos uns aos outros pelo amor", diz Paulo em Gálatas 5:13, depois de advertir que a liberdade não deve ser ocasião para a carne. A liberdade que Cristo dá não significa "ninguém pode me pedir nada"; significa que já não preciso escravizar meu próximo à minha necessidade de aprovação nem impor sobre ele o peso de conquistar a aceitação de Deus. A mesma Confissão de Westminster, no capítulo 20, lembra que a liberdade cristã não é pretexto para pecar: ela nos chama a servir a Deus com disposição, não com medo servil.

Há um teste simples para nossas palavras difíceis. Antes de corrigir alguém, perguntemos: "Estou buscando a edificação desta pessoa ou o alívio de dizer o que penso?" E antes de nos calarmos, perguntemos: "Estou preservando a paz para fazer o bem ou protegendo minha imagem?" Em 1 Tessalonicenses 2, Paulo recorda que anunciou o Evangelho como quem procura agradar a Deus, aquele que prova o coração, sem recorrer a palavras lisonjeiras nem fazer da mensagem um pretexto para obter vantagem. O servo de Cristo não bajula para conquistar pessoas, nem as trata com dureza para sentir-se corajoso. Ele diz a verdade porque ama e ama sem renunciar à verdade.

Na cruz, recebemos coragem para servir

Voltemos à pergunta inicial. De quem busco o favor? Quando a plateia da minha vida muda - família, amigos, colegas, igreja, pessoas que me acompanham à distância -, minha fidelidade muda junto? Talvez hoje alguém perceba que tem acrescentado exigências à graça. Outro talvez perceba que deixou de chamar pecado de pecado para não perder aceitação. Outro, ainda, usa Gálatas 1:10 como desculpa para nunca escutar, nunca pedir perdão, nunca cuidar da maneira como suas palavras atingem os outros.

O texto nos chama ao exame, mas não nos deixa entregues à tarefa de fabricar nossa própria coragem. O mesmo Cristo a quem Paulo serve é aquele que "se deu a si mesmo por nossos pecados". Não seremos justificados por finalmente conseguirmos ignorar toda opinião humana. Nossa esperança é a obra dele recebida pela fé. É dessa graça, e não do orgulho de sermos diferentes, que pode nascer uma fidelidade humilde e firme. E, como Paulo, podemos aprender a nos gloriar não em nossa reputação, mas na cruz do Senhor Jesus Cristo.

Por isso, se você teme os homens, venha a Cristo. Se trocou o Evangelho pelo desejo de ser aceito, volte a Cristo. Se falou a verdade sem amor, peça perdão e volte a Cristo. Depois, diante da próxima conversa difícil, da próxima decisão discreta, da próxima pessoa que precisa ser acolhida, lembre-se: não precisamos escolher entre servir a Jesus e amar o próximo. Quando Jesus ocupa o lugar de Senhor, somos libertos da tirania do aplauso e enviados a servir com a verdade e com amor.

Referências

Texto bíblico: Gálatas 1:4-12; 2:11-16; 4:6-7; 5:1, 13; 6:12-14; 1 Tessalonicenses 2:3-5; 1 Coríntios 9:19-23; 10:31-33; Romanos 15:1-3, 7; João 12:42-43; Atos 5:29 (Almeida Revista e Corrigida).

Exposição histórica: João Calvino, Comentário de Gálatas; Matthew Henry, Comentário de Gálatas; Martinho Lutero, Comentário da Epístola aos Gálatas.

Referência confessional: Confissão de Fé de Westminster, capítulos 11 e 20.

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