A Imago Dei e o Abismo

Este artigo explora a ontologia dos atributos comunicáveis de Deus na Teologia Reformada, sintetizando a precisão escolástica de Louis Berkhof com o biblicismo didático de Wayne Grudem. Analisamos a tensão entre a Simplicidade Divina e a multiplicidade de atributos, definindo os limites da analogia entre o Criador e a criatura.

ARTIGOS

Clemente A. Albuquerque Jr.

2/15/20265 min read

Uma Síntese Reformada dos Atributos Comunicáveis de Deus em Berkhof e Grudem

1. Introdução: O Paradoxo da Semelhança

Na Teontologia Reformada, a doutrina dos atributos comunicáveis não é apenas uma taxonomia de virtudes divinas, mas a resposta dogmática a uma questão fundamental: como o Infinito pode se relacionar com o finito sem perder sua transcendência?

Tanto Louis Berkhof quanto Wayne Grudem concordam que o ser humano, criado à Imago Dei, reflete o caráter de Deus. No entanto, suas abordagens para explicar o "mecanismo" dessa semelhança diferem em ênfase: Berkhof protege o abismo ontológico (o Deus que é totalmente outro), enquanto Grudem enfatiza a ponte relacional (o Deus que se compartilha).

Esta exposição busca uma síntese unificada: uma ontologia que preserve a transcendência de Deus (Berkhof) enquanto celebra a imanência de Deus na experiência humana (Grudem).

2. Fundamentação Ontológica: A Natureza da Comunicabilidade

Ao definirmos atributos "comunicáveis", não estamos sugerindo que partes da essência divina são transferidas para o homem (o que seria panteísmo), nem que Deus e o homem pertencem à mesma ordem de ser.

2.1 A Distinção Arquétipo e Éctipo (A Contribuição de Berkhof)

Louis Berkhof, seguindo a tradição escolástica reformada (como Bavinck e Turretin), fundamenta a comunicabilidade na distinção entre Teologia Arquetípica e Teologia Ectípica.

O Arquétipo (Deus em Si): O conhecimento e as virtudes de Deus são originais, infinitos e necessários.

O Éctipo (O Reflexo): As virtudes humanas são cópias finitas, derivadas e contingentes.

Para Berkhof, a comunicabilidade é uma analogia. Quando dizemos que Deus é "sábio" e o homem é "sábio", o termo não é unívoco (idêntico), mas análogo. O abismo ontológico permanece: a sabedoria de Deus é a Sua própria essência; a sabedoria do homem é um dom acrescido.

2.2 O Compartilhamento Relacional (A Contribuição de Grudem)

Wayne Grudem, com uma abordagem mais fenomenológica e biblicista, define os atributos comunicáveis como aqueles que Deus "compartilha" conosco. Ele simplifica a distinção ontológica focando no grau e na autoridade:

Compartilhamento Finito: Grudem alerta que "nenhum atributo de Deus é completamente comunicável".

A Definição Prática: São atributos onde vemos um "padrão de semelhança" claro (amor, conhecimento, misericórdia), permitindo que a ordem de Deus ("Sede santos, porque eu sou santo", 1Pe 1:16) seja ontologicamente possível para a criatura.

3. A Tensão Dogmática: Simplicidade Divina vs. Multiplicidade

O ponto de maior tensão acadêmica nesta doutrina é conciliar a lista de múltiplos atributos comunicáveis (amor, justiça, poder) com a doutrina da Simplicidade Divina (Simplicitas Dei), que afirma que Deus não é composto de partes.

3.1 O Problema

Se Deus "é" Seus atributos, como podemos listar "amor" e "justiça" como coisas distintas? E se nós "temos" esses atributos de forma fragmentada, como isso reflete um Deus que é simples (indivisível)?

3.2 A Solução na Síntese Reformada

A unificação do pensamento de Berkhof e Grudem nos oferece a seguinte estrutura de resolução:

Distinção Real vs. Lógica (Berkhof): Deus é uma essência única e simples. As distinções que fazemos entre "amor" e "justiça" são distinções lógicas (em nossa mente finita que precisa fragmentar para compreender), não distinções reais na essência de Deus. Deus não "tem" amor; Deus é amor.

O Prisma da Revelação: Podemos imaginar a essência simples de Deus como uma luz branca pura. A criação e a redenção funcionam como um prisma. Quando essa "luz simples" atinge a realidade humana, ela se refrata em um espectro de cores (atributos comunicáveis).

A Aplicação na Imago Dei (Grudem): O ser humano, sendo complexo e composto, reflete a simplicidade de Deus através da multiplicidade. Nossa santidade, justiça e saber são fragmentos que apontam para a Unidade Perfeita. Grudem argumenta que a diversidade de atributos nos permite adorar a riqueza do caráter de Deus sem violar Sua unidade.

4. Categorização e a Imago Dei

Combinando as taxonomias, podemos agrupar os atributos comunicáveis em três esferas principais onde a Imago Dei opera:

4.1 Atributos Intelectuais (A Mente de Deus)

Conhecimento e Sabedoria: Deus conhece todas as coisas intuitivamente (Arquétipo). O homem conhece discursivamente (Éctipo).

Veracidade: Deus é a verdade suprema. O homem é chamado a refletir isso sendo verdadeiro, o que é a base da lógica e da ciência.

4.2 Atributos Morais (O Caráter de Deus)

Bondade, Amor e Misericórdia: Aqui a teologia reformada brilha ao conectar teologia e ética. A comunicabilidade desses atributos é a base da Lei Moral. O "Bem" não é algo externo a Deus que Ele obedece; o "Bem" é a própria natureza de Deus comunicada como padrão para a criatura.

Santidade e Justiça: Berkhof nota que a santidade é comunicável no sentido de "pureza moral", mas incomunicável no sentido de "majestade transcendente".

4.3 Atributos de Vontade e Poder (A Soberania de Deus)

Vontade e Liberdade: A capacidade humana de agência e escolha é um reflexo direto (embora limitado e, pós-queda, escravizado) da liberdade soberana de Deus.

Poder (Onipotência): Embora não sejamos onipotentes, a capacidade de exercer domínio sobre a criação (Mandato Cultural) é a comunicação do atributo de poder e governo de Deus.

5. Conclusão Acadêmica

A teologia dos atributos comunicáveis, quando lida através das lentes combinadas de Berkhof e Grudem, nos protege de dois erros fatais:

O erro da identidade (Panteísmo): Achar que somos divinos. (Corrigido pela distinção Arquétipo/Éctipo de Berkhof).

O erro da distância (Deísmo): Achar que Deus é incognoscível. (Corrigido pela ênfase no compartilhamento pessoal de Grudem).

Em última análise, somos "como" Deus o suficiente para conhecê-Lo e relacionar-nos com Ele, mas diferentes o suficiente para que Ele permaneça sendo o objeto de nossa adoração, e não o espelho de nossa própria imagem.

6. Referências Bibliográficas

Obras Principais (Base da Pesquisa)

  • BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 4. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. (Especialmente a Parte I, "A Doutrina de Deus").

  • GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. Tradução de Norio Yamakami et al. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999. (Capítulos 11, 12 e 13 sobre o Caráter de Deus).

Literatura de Apoio (Fundamentação Reformada Clássica)

  • BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação (Vol. 2). São Paulo: Cultura Cristã, 2012. (Essencial para a distinção ontológica e a defesa da incompreensibilidade de Deus).

  • CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Livro I. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. (A fonte primária sobre o "Sensus Divinitatis" e o conhecimento de Deus).

  • CHARNOCK, Stephen. A Existência e os Atributos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. (A obra puritana definitiva sobre o tema, vital para a discussão sobre a Simplicidade Divina).

  • TURRETIN, Francis. Compêndio de Teologia Apologética (Vol. 1). São Paulo: Cultura Cristã, 2011. (A base escolástica reformada que estrutura o pensamento de Berkhof).

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